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50 anos... hora de ser feliz

 

Olho-me no espelho. Sempre fiz isso. Acordar bem cedo, tomar meu banho e antes de pôr a roupa, aquele tempo demorado diante do espelho, o ritual matutino: a maquiagem. Primeiro um creme para limpar a pele, depois um hidratante, uns truquezinhos para disfarçar as olheiras, que sempre tive, com preocupação, sem preocupação, com menstruação, sem menstruação, dormindo bem ou não. O blush para me deixar mais alegre, mais corada, disfarçando um pouco a pele branquíssima. O rímel para deixar meus cílios finos, mais grossos, meu olhar mais profundo, claro, um delineador também. A sombra para acentuar meu olhar, meus olhos grandes, azuis, como o azul do mar, como diria mamãe. Um batom vermelho, porém um tom mais discreto, mas que aumenta os meus lábios, um pouco finos. Um brilho, ou gloss, como se chama agora. Enfim, olho-me, reconheço-me. Ou melhor, reconhecia-me.
Hoje faço 50 anos... e agora?
Observo-me no espelho, agora maquiada, pronta para o trabalho. Mas estarei pronta para enfrentar esta nova etapa de minha vida?
Não vejo mais o rosto lisinho, atraente da jovem de outrora. Por dentro sinto-me a mesma jovem alegre, feliz, apaixonada pela vida, que adora sentir o sol na pele, o vento no rosto, a areia da praia nos pés, a música a embalar meus passos. Mas quem é esta que vejo agora diante de mim? Quem é esta mulher no reflexo do espelho a desafiar-me?
Ainda encontro no rosto desta mulher, traços da jovem, no olhar azul um sonho não realizado, um amor impossível não vivido.
Fecho o armário. Some o espelho, a imagem, o desafio. Termino de me vestir rapidamente, porque o tempo passa tão rápido, tão fugaz.
Entro no meu carro, coloco uma música e dirijo rumo ao escritório... mas instintivamente paro próximo à praia. Desligo o carro. Saio. Começo a andar despreocupadamente pelo calçadão, como se fosse feriado, como se estivesse no meu primeiro ou no último dia de férias, como se fosse morrer amanhã: guardar esse momento, essa paisagem nas minhas retinas pra sempre!
Assim ando, feliz, despreocupada, olhando as pessoas que passam por mim.
De repente... uma surpresa! Fecho os olhos! Sinto meu coração bater rápida e doidamente de novo. O ar me falta! O corpo trêmulo. A mente confusa. A visão da adolescente apaixonada: o beijo inesquecível, o amor impossível. Eu, filha de pobres agricultores; ele, filho de ricos fazendeiros, tradicionais, família de nome e muitos sobrenomes. Nosso namoro foi proibido pelas duas famílias. A minha, a mais fraca, se mudou para bem longe, outras terras, outras fazendas.
Sim. É ele. Jamais esqueci aquele rapaz moreno, alto, cabelos negros e encaracolados, aqueles dentes branquíssimos, o sorriso farto.
Paramos. Olhamo-nos por um momento. Um tempo longuíssimo: tantas lembranças! Um filme passa em minha mente. Acredito que na dele também.
— Você é a Ana!?
— Sim, você ainda se lembra?
— Claro, nunca esqueci. Como você está? Casou? Teve filhos? Mora aqui perto?
— Casei. Meus filhos já estão adultos, casados, cuidando de suas vidas. Moro perto, mas na verdade estava a caminho do trabalho, quando fui magicamente impelida pra cá.
— Mas me fala... e o seu marido?
— Você não ficou sabendo? Claro que não... desculpe. Ele morreu há 5 anos atrás... foi muito difícil, mas superei.
Conversamos por mais algum tempo. Ele me contou que também havia se casado, tivera filhos, mas que estava separado já há alguns anos. Não foi feliz!  Trocamos telefones, e-mail, orkut, skype, twitter... todas as formas de comunicação possíveis para não nos perdermos mais.
Volto pra casa. Depois desta caminhada pela orla, acompanhada pelo jovem, aos meus olhos, agora meio grisalho, mas  não menos bonito, nem menos sedutor, príncipe dos meus sonhos. Estou renovada!
Volto ao espelho! Olho-me, reconheço naquela imagem real, atual, um brilho novo, uma nova esperança.
50 anos... e agora?
Hora de escrever uma nova história ou retomar uma história interrompida. Hora de ser feliz!

(Texto enviado para o 4° PRÊMIO UFF DE LITERATURA  -     CONTOS, CRÔNICAS E POESIAS - 2010) 

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