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História de Aninha





Aninha era uma criança, como tantas outras crianças pobres, que nas cidades grandes existem aos milhares nas periferias. Como todas elas também frequentava escola. Como todas elas também não tinha muitos livros em casa, seus pais não liam jornais, revistas, porque ter acesso a isso significaria deixar de comprar todo mês três pacotes de arroz, ou ainda cinco pacotes de feijão de dois quilos, o que para eles seria impensável, porque a família era composta de pai, mãe, três crianças, ela, Aninha, era a mais nova.
Ela lia na escola. Lá ela tinha acesso aos livros. Didáticos. Esses ela levava para casa, utilizava para fazer as lições da escola. Nesses livros havia algumas histórias completas, porém outras tinham somente parte delas, isso a deixava frustrada. Cadê o final? Como seria? O que aconteceria com os personagens?
Aninha morava em um bairro, como muitos das periferias das grandes  cidades, onde não havia parques, praças, cinemas, teatros, bibliotecas. Ela só ia ao teatro nas pouquíssimas vezes que a escola recebia convites, ônibus, podia então leva-los ao teatro no centro da cidade. Fora isso a referência que ela tinha de teatro eram as peças montadas pela professora, que eram apresentadas no pátio, em datas especiais, para as quais os pais eram convidados, mas nem sempre compareciam.
Aninha tinha amigos, na escola, no bairro. Todos viviam a mesma realidade. Ela era diferente. Ela sentia um desejo, uma vontade, uma curiosidade, que a invadia todas as vezes que, na escola, passava diante daquela porta grossa, escura, de ferro, onde se lia “Biblioteca Monteiro Lobato”.
Um dia não agüentou e perguntou a professora:
- Dona Rita, quem é esse tal Monteiro Lobato? O nome da porta de ferro?
A professora, atenta aos conteúdos de Língua Portuguesa no quadro negro, respondeu:
- Foi um escritor de livros infantis. Acho que vocês já devem ter lido um ou outro texto dele no livro que usamos. Não se lembra?
Ela virou-se para a lousa e continuou a passar o conteúdo da terceira série: substantivos, adjetivos, verbos...
A D. Rita dizia que eles utilizariam muito tudo isso na quinta série, ou como se chamava agora, sexto ano.
Na cabeça de Aninha continuava aquele ponto de interrogação: quais os livros que Monteiro Lobato escreveu? Onde estariam?
E os dias seguiam, um após o outro, lentamente, aquelas manhãs longas a desfiar os substantivos, sobrecomuns, derivados, de dois gêneros... o que significaria tudo isso? Ela continuava copiando, copiando, copiando, copiando...
Um dia, no horário do intervalo, naquele alvoroço, naquela correria, em que os alunos quase se chocavam uns nos outros, aquela gritaria, surgiu, pela porta principal, uma mulher, de óculos, andar firme, e dirigiu-se para a Direção.
Logo o boato se espalhou... era a nova vice-diretora. Aninha e os amigos, Joãozinho, Paula, Claudia, Yasmin, se perguntavam: o que mudaria na escola?
Por um tempo não perceberam muitas mudanças, ela fazia o mesmo que as outras, atendia os alunos, atendia os pais, observava o intervalo, conversava com as inspetoras que cuidavam dos alunos nesses momentos, entregava material na secretaria, passava nas salas dando recados da direção, atendia os alunos machucados: dentes que caíram, arranhados, dor de cabeça, febre.
Um dia, ela, a vice-diretora, Maria, subiu as escadas, disseram que ela estava na Biblioteca. Aninha pediu para a professora para ir ao banheiro, porque estava com dor de barriga, subiu, também, as escadas correndo, pois queria ver a biblioteca por dentro.
Ao chegar lá, encontrou a porta aberta. O lugar estava meio bagunçado, desorganizado, e ela, a vice, estava lá, pegava um livro aqui, outro ali, abria, lia um trecho, olhava as imagens, ria, e Aninha ali, muda, olhando, sem fazer barulho. Até que a vice a viu, disse:
- Entra. Como é seu nome?
- Aninha.
- Já conhecia a Biblioteca?
- Não nunca entramos aqui. Por isso vim correndo quando vi a senhora subindo as escadas.
- Então sente-se um pouco, que vou ler um livro pra você.
Maria abriu o livro que tinha nas mãos, um fino, história curta, para poder ler a história toda para a menina curiosa. O livro era “Quem tem medo do ridículo?”. Ela lia cada palavra de uma forma, que Aninha ouvia deliciosamente como se fosse a mais bela música. Seus olhinhos brilhavam. A voz de Maria subia e descia, a entonação mudava de acordo com a pontuação, fazia paradas, perguntava algumas coisas para Aninha. De repente sentiram uma presença atrás delas: era D. Rita, que estava ali parada, também ouvindo a leitura.
Assim começou a história de mudança naquela escola, fazendo da leitura o principal objetivo de todos os professores, alunos, direção, funcionários.
Assim começou e continuou pela vida afora o amor de Aninha pelos livros, pela leitura, que passou a fazer parte do seu cotidiano, NA ESCOLA, e também fora dela. Assim Aninha conheceu uma outra Aninha, aquela poeta, aquela que escreveu “Conclusões de Aninha”, muito conhecida como Cora Coralina.
Era isso... D. Maria ensinou os professores, os alunos, como no poema de Cora, a pescar. Mais do que peixes, a pescar muitas, muitas, palavras. 

(Texto escrito para participar do Concurso Leia Comigo-2010)

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