Fico vendo as crianças de hoje somente
conectadas no celular e no mundo virtual, muitas vezes irreal ou adulterado que
existe ali, sem vivenciar outras experiências simples e tão enriquecedoras para
o ser humano, como aquelas que nos permitem um contato maior com a natureza e
outros seres humanos da mesma idade.
Não sou dessa geração. Nem nasci nesse
século!
Na minha infância brincávamos e nos
divertíamos com coisas simples e grátis ou baratas ou então feitas por nós
mesmos, dada às dificuldades financeiras de boa parte das famílias de minha
cidade e com as quais eu tinha contato.
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| Imagem criada por IA |
Eu tinha outras brincadeiras também!
Como filha de costureira, que trabalhava
em casa, vivi em meio aos tecidos, tesouras, agulhas, botões, zíperes, linhas
coloridas, moldes de roupas e muitos retalhos de tecidos. Eu tinha umas bonecas
de plástico duro, pequenas, as mais baratas, com cabelos loiros, pareciam
modelos. Para elas eu fazia as roupas com os retalhos e costurava pacientemente
cada uma delas à mão. Era uma de minhas diversões! Eu mesma imaginava a roupa,
cortava e costurava e assim vestia as minhas modelos. Andava pra lá e pra cá
com uma espécie de sacola, onde colocava as bonecas e um monte de roupinhas,
que eram usadas para trocá-las, a depender da brincadeira de cada dia. Quando
ia para a casa de alguma amiga, o que não era comum, colocava tudo em uma mala
velha e ia feliz da vida brincar. Lembro de brincar com a Regina, uma amiga que
morava em um sítio próximo, que era sobrinha de uma de minhas tias.
Havia outras brincadeiras! Não gostava
muito de me sujar brincando, apesar de morarmos em uma casa com um enorme
terreno com muito espaço, muita terra, areia, mas também horta, galinhas. De
vez em quando brincava sentada na terra, fazendo as populares comidinhas de
barro.
Minha mãe contava que eu também brincava
de ser Professora. Ela adorava, pois não conseguiu estudar e projetava na gente
seus sonhos. Ela falava que eu colocava as bonecas encostadas em algum lugar,
escrevia nas paredes e “dava aulas” para essas alunas pacientes e silenciosas.
Também fazia minhas “artes” quando
criança. A mais famosa, não sei ao certo a idade, mas talvez uns quatro ou
cinco anos, quando meu irmão mais velho voltou da escola rural, onde estudava,
e trouxe uma lata com leite em pó. Não lembro detalhes, mas segundo ouvi de
outro irmão, quando minha mãe foi procurar o leite em pó, ele estava nas
paredes da nossa humilde casa de madeira, deixando-as caiadas. Dei uma outra
utilização ao leite!
Em parte de minha infância morávamos em
um sítio em um distrito da nossa cidade natal, onde havia uma estrada de terra
que passava na cabeceira da propriedade, cuja propriedade, como era comum na
época, era inteira cercada por arames farpados. Certa vez, estava passando uma
boiada por essa estradinha e acompanhei meus irmãos, que correram até lá
apreciar a vacaria. Como eu era a menor, mas queria ver tão bem quanto eles,
peguei uma madeira que estava por ali, coloquei-a sobre um dos arames farpados
e subi. Adivinha? Caí, claro! Na queda meu rosto pegou na cerca e o arame
rasgou meu rosto. Médico? Pontos? Que nada! Nessa época nem hospital nossa
cidadezinha tinha, apenas um farmacêutico que socorria as urgências da
população. Fui cuidada em casa pela minha mãe. Por bastante tempo ficou a marca
no meu rosto, que me incomodava, mas com o passar do tempo e o crescimento a
cicatriz foi mudando de lugar e ficando
mais discreta. Sobrevivi!
Temos tantas histórias de vida para
contar, mas só as vivenciamos, porque não tínhamos uma tela de celular nos
hipnotizando e mandando em nossas vidas! Éramos livres!

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