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João Delfiol Construções

João Delfiol Construções

Sobre o medo

Não me lembro muito de meus medos de criança. Acho que não os tinha! Morava no interior, em uma jovem cidade, onde todo mundo se conhecia. Por muitos anos morei lá. Morávamos em modestas casas de madeira, onde se fechavam portas e janelas com “tramelas”. O que é uma “tramela”? Um retângulo de madeira, com um prego no meio, afixado próximo à janela, que servia para fechá-la.
Por que falar de medo?
Porque me incomoda muito ver uma menininha de nove anos, falando que tem medo! Medo que as pessoas que ama morram. Medo que alguém assalte a casa, onde mora com sua família.
Não são os medos infantis! Não são aqueles medos, que provavelmente muitas crianças já tiveram. Medo do escuro. Medo do bicho papão. Medo do homem do saco. Medo de se perder de seus pais.
Os medos desta menininha de olhar doce, fala mansa, meiguice nos gestos, coração cheio de amor, são medos frutos desta sociedade, que publica diariamente o horror, que estamos vivendo. Este horror não está mais restrito às grandes cidades, capitais.
A violência invadiu o País inteiro!
Vemos, nas notícias, os jovens sendo mortos nas portas de suas casas, porque não quiseram entregar um celular ou porque não tinham o que entregar.
Vemos jovens morrendo em vida ao serem seduzidos pelo uso de pesadas drogas ilícitas.
Vemos, nas notícias, bancos sendo explodidos de norte a sul do País. Não estou falando só das grandes cidades. As pequenas, do interior, antes tranquilas, redutos de pessoas, que também levavam uma vida tranquila, sem sobressaltos. Pessoas que deixavam suas janelas abertas até durante a noite!
E o que se faz sobre isto? Se mostram estatísticas! Estatísticas! Números! O quanto a violência diminuiu no primeiro bimestre, no segundo trimestre, em relação ao mesmo período do ano passado!
É nisto que as pessoas se transformam! Somente números! Deixam de ser pessoas, seres humanos, seres com sentimentos, sonhos, objetivos, planos, para se tornaram um número! Um número frio. Um número que destitui a pessoa de toda sua humanidade. Um número que rouba da pessoa sua essência, sua vida, sua alma.
E assim vamos nós. Vivendo cada dia. Nos acostumando. Nos acostumando a ver a violência. Nos acostumando a ver as crianças perdendo a infância e a inocência desta fase. Nos acostumando a ver o anormal ser normalizado por outras pessoas... será que podemos chamá-las assim?
Não! Não me acostumo com isto! Não me acostumarei a ouvir aquela doce menininha falando de medos adultos. Não me acostumarei a ouvir uma criança contar do pavor de ter sua casa invadida por estranhos! Não me acostumarei!

Créditos das imagens:

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