Pular para o conteúdo principal

Mamonas nada assassinas

Há imagens que, ao fotografar, me remetem a lembranças da infância. Fico por instantes entre a lente e a memória. O presente se confunde com o passado. Fico inerte. Câmera na mão. Olhos no LCD. Meu cérebro revirando fatos passados, distantes, procurando uma referência, um acontecimento, que explique esta sensação. Parece um déjà vu.
No final de semana, domingo, manhã de sol gostoso, saímos para fotografar. Como o tempo estava meio incerto, ficamos nos arredores de nossa casa, nosso bairro. Tem uma um riozinho próximo, um pouco de mata, uma diversidade de plantas, as vezes flores, as vezes borboletas, as vezes pássaros, muitas vezes, gente.
Ao chegarmos próximos desta parte, que margeia o rio, onde se inicia a mata, comecei a fotografar uma planta. Folhas muito verdes. Muito viçosas. Sem muitas flores. Mas com seus frutos curiosos, algumas flores, que não lembro de ter visto antes. Fotografei. Primeira foto. Segunda foto. As lembranças distantes foram me invadindo.
Lembranças que não vivi. Filha caçula. Naquela época. Quatro irmãos. Três irmãos mais velhos e uma irmã. Muitos, muitos primos, algumas primas. Os primos se reuniam sempre para brincar, claro, brigar. As brigas aconteciam, mas não prosperavam, pois as mães, de ambos os lados, não davam muita corda.
Estas reuniões aconteciam quando morávamos em uma colônia, na qual moravam meus avós paternos, meus tios, tias, irmãos do meu pai. Cada um tinha seu núcleo familiar: esposa e filhos, ou, esposo, filhos. Imaginem uma época, na qual não havia televisão, as pessoas se recolhiam muito cedo, acordavam também muito cedo para trabalhar na roça de café. Claro, que nesta época, filhos eram também mão de obra. Devido a isto as famílias eram numerosas, por isto tínhamos primos com idades iguais ou muito próximas das nossas.
Não tenho muitas lembranças deste tempo, pois meu pai era o filho mais jovem, dos irmãos, eu a filha mais nova dele, logo, não lembro quase nada deste período, mas ouvi falar, ouvir contar histórias. Muitas histórias. Meu irmão mais velho até iniciou um livro para contá-las, mas não tive mais notícias, nem sei se deu continuidade a este projeto.
Nesta época de muitos meninos brincando juntos, inventando brincadeiras, porque não havia brinquedos industrializados. Um dos brinquedos mais comuns desta época eram as atiradeiras, chamados por nós, no interior do Paraná, de estilingues. Eram feitos de uma forquilha de madeira resistente e borracha de câmara de ar de bicicletas, que uma vez furadas, sem condições para remendos, eram reutilizadas para produzir este artefato. Além dele, do estilingue, era necessário algo para usar para atirar e acertar o alvo, fosse ele um passarinho, um mourão de cerca. O que se usava? Houve época, quando se morávamos perto de um ribeirão, se faziam bolotas de argila, barro. Elas eram secadas ao sol, depois utilizadas para se atirar. Quando não se podia mais fazê-las com este barro do córrego, pois morávamos, então, na cidade, a inventividade infantil logo encontrou substituto. E o que foi? Uma certa arvorezinha, que era plantada, cujos frutos acabavam servindo para se extrair óleo. Como eram os frutinhos? Redondos. Verdes. Vários espetinhos macios, de pontinhas levemente dobradas. Nesta fase não machucavam. Quando amadureciam, secavam, estes espetinhos ficavam secos, aí sim, podiam machucar. Nesta fase eram colhidos para se extrair o óleo.

Não. Os meninos não esperavam tanto. Os frutinhos verdes eram arrancados e utilizados como “balas” de seu estilingue. Passavam horas nesta brincadeira inocente, cujo objetivo era este: brincar. As vezes um ou outro poderia sair com um machucadinho, mas sem intenção do atirador. Afinal, no afã da brincadeira, o primo, de pontaria duvidosa, acabava acertando o outro.
Assim as mamonas faziam a alegria dos meninos correndo, com estilingues na mão, acertando os mourões, cupinzeiros, chiqueiros de porcos, as cercas do curral.



Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Dicas sobre provas para eliminação de matérias e ENCCEJA E ENEM

Escrevi uma postagem com dicas para concurseiros de primeira viagem, mas analisando os atendimentos diários que faço no meu trabalho, pensei em escrever outro(s) texto(s) com dicas ou orientações sobre outros assuntos, pois mesmo com tanta informação disponível, as pessoas continuam sem conhecimentos básicos, que podem ajudá-las a resolver problemas simples do seu cotidiano, que vão desde onde procurar a informação, como também onde cobrar seus direitos.
Para começar esta série de textos, vou falar um pouco das provas para eliminação de matérias. As pessoas buscam muito este tipo de avaliação, na qual, desde que atinjam as médias, eliminam todo o ensino fundamental ou todo o ensino médio.
Para quem pretende eliminar o ensino fundamental - Ciclo II (antigo ginásio, 5ª a 8ª série, 6º ao 9º ano atualmente) poderá fazê-lo por meio do Encceja, que é uma avaliação de eliminação de matérias, ou seja, o candidato pode ir eliminando áreas (Linguagens e Códigos, Ciências da Natureza, Ciências Hum…

HISTÓRIA DE ANA ROSA

Você já ouviu a música sertaneja de Tião Carreiro e Carreirinho intitulada "Ana Rosa"? Se ouviu conhece a história dessa mulher. Se não ouviu, farei um resumo da história. Ana Rosa morava em Avaré, cidade próxima a Botucatu. Como muitas jovens de sua época casou-se cedo, pois havia se apaixonado por Francisco de Carvalho Bastos, mais conhecido como Chicuta, que era muito ciumento, por isso trazia a esposa sob constante vigilância. Homem dos idos de 1880, muito machista, começou a maltratar a mulher, tanto moral quanto fisicamente. Até que um dia a jovem esposa cansou de tanto sofrer, fugiu para Botucatu, refugiando-se em um cabaré de uma mulher chamada Fortunata Jesuína de Melo. Quando o marido chegou em casa e não encontrou a mulher, ficou cego de ciúmes, procurou-a por todos os lados, até que soube que ela havia fugido e para onde havia ido. Mais do que depressa ele se dirigiu para Botucatu, onde chegou e contratou José Antonio da Silva Costa, mais conhecido por Costinha, e He…

STAROUP: propagandas, história e futuro da marca

Você se lembra desta marca? Sabe de qual produto? Não?????!!!!!!
Pois bem... vou refrescar a memória daqueles que estão nos "enta", dos mais jovens que nunca ouviram esta palavra.
Quando eu era adolescente, o que não faz muito tempo, o jeans, que mais se ouvia falar, cujas propagandas eram inteligentíssimas, bem feitas, ainda por cima engajadas, eram da Staroup. 
Uma delas foi premiada internacionalmente, porque mostrava o engajamento dos jovens, que eram ousados, corajosos, lutavam contra o regime da época: a Ditadura Militar. 
Esta propaganda, famosíssima, ganhadora do Leão de Ouro em Cannes, foi pensada, pelo não menos famoso, Washington Olivetto, da Agência W. Brasil. Quer conhecê-la? Acesse e conheça!




Além deste premiado, há outros. Há o comercial abaixo, que mostra a então adolescente, Viviane Pasmanter, no papel da gordinha, que quer usar um jeans da Staroup e faz uma verdadeira maratona para conseguir alcançar seu objetivo. A qualidade do vídeo não é muito boa, porém vale…