Pular para o conteúdo principal

João Delfiol Construções

João Delfiol Construções

RETROSPECTIVA DO BLOG

Criado com o Padlet

Uma certa aluna

Hoje, fazendo uma faxina no meu computador, em especial na pasta de downloads, para onde vão todos aqueles documentos que baixamos da internet, achei um TCC de uma ex-aluna minha.
Não, ela não foi minha aluna na Faculdade, nem no Ensino Médio.
Ela foi minha aluna nos primeiros anos de minha carreira no magistério, em sala de aula, quando, professora iniciante, encontrava alunos de 5ª série, maioria vinha totalmente alfabetizada, eu tinha a tarefa de ensinar gramática, amor à leitura (realizei projetos de leitura por prazer!).
Esta aluna em especial, moradora de uma favela bem conhecida em Santo André, filha de família humilde, trabalhadores, que ensinaram a ela o mais importante: o valor da Educação.
Já na 5ª série lia os livros, que o pai, estudante do supletivo, estava lendo. Ela, era gordinha, os colegas até faziam gozações com ela, mas que ela tirava de letra. Sentava-se em uma das primeiras carteiras, sempre atenta, estudiosa, não faltava às aulas, já tinha sonhos profissionais: ser socióloga.
Como todos nós, filhos de gente humilde, estudou, trabalhou. Tentou bolsa do Pro-Uni, mas foi “enrolada” pela Faculdade e pelo programa, ficou um jogo de empurra-empurra. Conclusão: não cursou esta Faculdade.
Não, ela não desistiu. Poderia ter ficado se lamentando pelos cantos, falando que era discriminada pela sociedade, excluída...
Conseguiu passar em uma prova para estágio, pelo Governo do Estado, começou a trabalhar.
Passou no vestibular da FATEC, usou os conhecimentos do estágio para elaborar seu TCC, que li, ajudei a corrigir. Quanto orgulho pra mim! Depois de concluído, me enviou uma cópia, onde pude ler nos agradecimentos “À Professora e amiga ... que há 13 anos acompanha minha trajetória, estimula meu crescimento e auxiliou na correção desta monografia.”
Esta mesma aluna, quando recebeu um convite de trabalho, novo, me enviou e-mail solicitando minha opinião, que humildemente dei, pois quem sou eu para decidir o futuro dela. Senti-me amiga, confidente. Fiquei feliz por fazer parte e ser importante, referência para a vida dela.
Queria muito ver mais pessoas como ela, que mesmo diante das adversidades, renovam suas forças, seguem em frente abrindo novos caminhos, sonhando novos sonhos.
Queria ver mais pessoas que, mesmo morando em “comunidades”, vissem em si mesmos a chave da mudança, da transformação. Que soubessem que o que transforma nossa realidade, nosso ser, nossa vida, é a Educação.
Por que pus a palavra comunidades entre aspas? Não é mudando o nome do lugar, que mudará a mentalidade das pessoas.
Não, não tive somente esta aluna que seguiu lutando, realizando, estudando, mas ela é o melhor exemplo, a meu ver, do quanto a Educação pode transformar, incluir pessoas.
Esta moça, mulher, foi minha aluna há mais ou menos 15 anos. Ainda me emociono ao lembrar do rostinho da menina de 10, 11 anos sempre sorridente e participativa, sentada na primeira carteira.
Para você, aluna querida, agora amiga, dedico este texto!

Comentários

Ivan Leite disse…
Bonito texto, são essas coisas que fazem a gente voltar no dia seguinte para ministrar aulas!!!

Postagens mais visitadas deste blog

Dicas sobre provas para eliminação de matérias e ENCCEJA E ENEM

Escrevi uma postagem com dicas para concurseiros de primeira viagem, mas analisando os atendimentos diários que faço no meu trabalho, pensei em escrever outro(s) texto(s) com dicas ou orientações sobre outros assuntos, pois mesmo com tanta informação disponível, as pessoas continuam sem conhecimentos básicos, que podem ajudá-las a resolver problemas simples do seu cotidiano, que vão desde onde procurar a informação, como também onde cobrar seus direitos. Para começar esta série de textos, vou falar um pouco das provas para eliminação de matérias. As pessoas buscam muito este tipo de avaliação, na qual, desde que atinjam as médias, eliminam todo o ensino fundamental ou todo o ensino médio. Para quem pretende eliminar o ensino fundamental - Ciclo II (antigo ginásio, 5ª a 8ª série, 6º ao 9º ano atualmente) poderá fazê-lo por meio do Encceja, que é uma avaliação de eliminação de matérias, ou seja, o candidato pode ir eliminando áreas (Linguagens e Códigos, Ciências da Nat...

HISTÓRIA DE ANA ROSA

Você já ouviu a música sertaneja de Tião Carreiro e Carreirinho intitulada "Ana Rosa"? Se ouviu conhece a história dessa mulher. Se não ouviu, farei um resumo da história. Ana Rosa morava em Avaré, cidade próxima a Botucatu. Como muitas jovens de sua época casou-se cedo, pois havia se apaixonado por Francisco de Carvalho Bastos, mais conhecido como Chicuta, que era muito ciumento, por isso trazia a esposa sob constante vigilância. Homem dos idos de 1880, muito machista, começou a maltratar a mulher, tanto moral quanto fisicamente. Até que um dia a jovem esposa cansou de tanto sofrer, fugiu para Botucatu, refugiando-se em um cabaré de uma mulher chamada Fortunata Jesuína de Melo. Quando o marido chegou em casa e não encontrou a mulher, ficou cego de ciúmes, procurou-a por todos os lados, até que soube que ela havia fugido e para onde havia ido. Mais do que depressa ele se dirigiu para Botucatu, onde chegou e contratou José Antonio da Silva Costa, mais conhecido por Costinha, e...

O Tempo em Suspenso: Memórias de um Luto que Distorce as Horas

  Há alguns meses li uma matéria na internet que falava da percepção do tempo pelas pessoas que estão passando pelo luto. Perdi minha mãe há cerca de sete meses e desde os primeiros dias percebi que algo em mim havia mudado. Além da ausência, da saudade, das lembranças ao estar nos lugares onde estivemos juntas com frequência, senti algo diferente relacionado à passagem do tempo. Primeiro imaginei que era algo passageiro, apenas uma impressão minha que passaria rapidamente, e isso me acalmou. Após o retorno da vida quase normal após a pandemia também me senti assim ao andar pela cidade e verificar mudanças que não vi acontecerem. Casas antigas desapareceram. Novas construções surgiram. Comércios fecharam. Outros novos comércios foram abertos. Mas agora não era isso. O sentimento é outro. Em especial quando estou só, em silêncio comigo mesma, andando indo para o trabalho ou andando pela rua, em silêncio. Acompanhei mudanças na cidade próximas ao bairro que moro, vi novos ...