Pular para o conteúdo principal

João Delfiol Construções

João Delfiol Construções

José, paraplégico

Durante alguns anos trabalhei com alunos de quinta e sexta série, ainda bem crianças, dependentes do professor, alguns mais, outros menos, enviavam bilhetinhos, cartões de natal, lembrança do dia do professor.
Era emocionante ver o quanto eles se transformavam do início da quinta série até o final da sexta, agora mais adolescentes, as meninas mais mocinhas, mais mulheres, os meninos também mudando, mas em ritmo mais lento.
Professores que atuam com alunos dessa faixa etária, nem sempre têm o prazer de saber, como os docentes do final do ensino médio, o que cada jovem pretende fazer: casamento, filhos, profissão... Muitos deles nem se lembram dos professores do ensino fundamental, mas com o passar dos anos, nós, professores, sempre temos notícias de um ou de outro aluno: faculdade, emprego, casou, mudou de cidade, de país.
Temos notícias boas, ruins, infelizmente. Uma delas martelou por muito tempo minha cabeça!
Um deles, quietinho, tímido, poucas falas, poucos amigos, mas bom aluno. Sentava no fundo da sala, algumas dificuldades com a Língua Portuguesa, o que é normal para a série. Família participante. Mãe presente nas reuniões. Em outros dias, no término do período, vinha conversar com um ou outro mestre, saber do filho.
Anos mais tarde, reencontrei no bairro, um dos muitos ex-alunos, da mesma turma desse garoto, que chamarei simplesmente de José. Falamos sobre escola, aulas, dos colegas de turma e notícias deles.
Até que seu semblante ficou triste e me perguntou: “a senhora se lembra do José? Aquele que sentava no fundo da sala, quietinho, perto do João, do Pedro, do Antonio...” São tantos os alunos... Respondi que lembrava. Perguntei o que havia acontecido. Levei um choque!
- Pois é, professora. José, aos dezessete anos, armado, na cidade vizinha, abordou um motoqueiro para assaltá-lo, talvez levar dinheiro, a moto. O motoqueiro era um policial, à paisana, armado, que não pensou duas vezes: reagiu. O José não morreu, mas está de cadeira de rodas, paraplégico.
  
Enviei em: 07/08/2009 (para o Concurso Cultural "Era uma vez - especial Dia do Professor" da Revista Nova Escola) 

Comentários

Ivan Leite disse…
Você descreve em uma parte do texto algo que tenho para mim: que caminho seguirá meu aluno da 5a. série? Não vemos o final do proceso de aprendizagem que contianmos e nem sabemos sobre o futuro deles. Quando,às vezes, passo pela rua e um aluno chama pelo meu nome, fico muito orgulhoso, contente, pois ele não esqueceu, pelo menos o nome, de alguém que fez parte do processo de sua vida.Ser professor tem disso:ficar sem saber o que acontecerá com o futuro deles.
catléia disse…
Este texto mudei os nomes, afinal é um fato real, verdadeiro. Isto me marcou muito, como costumam marcar as tragédias humanas, seja com uma pessoa ou com milhares.
Obrigada pelos comentários!!!

Postagens mais visitadas deste blog

A rotina na sala de aula I

Comecei lecionar em 1992, permaneci atuando em sala de aula até o início de 1997. Nesses anos tínhamos, em cada sala, uma parcela de alunos que não queria estudar, que vinham para a escola só para namorar, vagabundear, dizíamos que eles não tinham perspectiva de vida. Desses alunos, muitos ficavam anos e anos se matriculando na mesma série, assistiam alguns meses de aula, se evadiam, retornavam mais tarde para o curso noturno regular ou então para a suplência, por isso o curso noturno sempre foi bastante complicado, parecia que existiam duas escolas diferentes co-existindo em uma só. Anos se passaram, retornei para a sala de aula esse ano, 2010, em uma cidade do interior, mas sabendo que o alunado não seria muito diferente dos alunos de cidades grandes. A situação descrita no início desse texto, mudou muito, e para pior, pois temos agora em sala de aula uma maioria de crianças e adolescentes, que diariamente vão para a escola, porém sem a menor vontade de aprender, de estudar. Isso se...

Possibilidades

Hoje um amigo me perguntou se não estava mais publicando, porque não tem textos recentes no blog. Contei a ele que ontem estava escrevendo um, quando inesperadamente meu computador travou, quando voltou a funcionar... cadê o texto? Sumiu! Não estava de jeito nenhum nos arquivos recuperados. Você pode perguntar, por que não salvou? Por quê? Porque quando estamos escrevendo, planejando, pensando, repensando, as palavras vão fluindo, fluindo e nossos dedos parecem ter uma ligação mágica com nosso cérebro, de tal forma que o pensamento vai tomando forma, vida. Este tomar forma é algo realmente mágico! Iniciamos um texto, podemos ter de início, um plano, uma ideia na cabeça. Quando começamos a escrevê-lo, ele vai nos mostrando a direção para onde quer ir. Neste que você lê, talvez não enxergue esta mágica acontecendo, pois o verá acabado, formatado, concluído, diferentemente dos rascunhos, feitos à mão, dos escritores de outrora, nos quais se via o processo criativo, que se mostrav...

Dicas sobre provas para eliminação de matérias e ENCCEJA E ENEM

Escrevi uma postagem com dicas para concurseiros de primeira viagem, mas analisando os atendimentos diários que faço no meu trabalho, pensei em escrever outro(s) texto(s) com dicas ou orientações sobre outros assuntos, pois mesmo com tanta informação disponível, as pessoas continuam sem conhecimentos básicos, que podem ajudá-las a resolver problemas simples do seu cotidiano, que vão desde onde procurar a informação, como também onde cobrar seus direitos. Para começar esta série de textos, vou falar um pouco das provas para eliminação de matérias. As pessoas buscam muito este tipo de avaliação, na qual, desde que atinjam as médias, eliminam todo o ensino fundamental ou todo o ensino médio. Para quem pretende eliminar o ensino fundamental - Ciclo II (antigo ginásio, 5ª a 8ª série, 6º ao 9º ano atualmente) poderá fazê-lo por meio do Encceja, que é uma avaliação de eliminação de matérias, ou seja, o candidato pode ir eliminando áreas (Linguagens e Códigos, Ciências da Nat...