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Fotografia de família




Fotografia e memória
são enganosas, porém não enganadoras. O que importa não é a fidelidade
da imagem (mental ou fotográfica) com o fato passado, mas a conexão
afetiva e imaginária entre os mesmos.”[1] (CRUZ, Nina Velasco e)


Já registrei momentos especiais de minha família! Muitos! Ultimamente alguns a pedido de irmãos. Como leiga, claro, porque não sou fotógrafa profissional. Sou apenas alguém que ama fotografar, seja a família, amigos, minha gata, minhas flores.
Quando meu irmão, Robson, se casou fui convidada a filmar o casamento. Levei a máquina fotográfica também. Eu fotografei uma parte e a Izabela, minha sobrinha a outra parte, pois durante a cerimônia eu passei a filmar. Além de nós duas, havia uma fotógrafa profissional também. Muitas de nossas fotos ficaram com ângulos e qualidade melhores, do que as tiradas pela profissional. O álbum acabou ficando com fotos feitas por mim e pela minha sobrinha e pela fotógrafa.
Quando este mesmo irmão e sua esposa estavam grávidos do primeiro filho, comprei minha primeira máquina fotográfica profissional. Estive, no mesmo dia, na casa deles, claro, não me contive e fiz meus primeiros registros com o novo brinquedinho! Fotos do casal com o barrigão! Foram várias! Ficaram bem legais!
O tempo passou e mais um bebezinho veio. E fez aniversário também. Em um dos aniversários, que fui, levei, como sempre, uma de minhas máquinas. O aniversariante, então com 2 anos, me puxava pela mão e me chamava para tirar fotos dele. Ele escolheu alguns lugares, fez poses! Foi muito legal!
Vejam que este comportamento de meu sobrinho, então com dois anos, mesmo sendo algo natural, não foi orientado por um adulto, de certa forma foi encenado, por ele mesmo, ao escolher como queria ser fotografado, onde, portanto “(...), existe uma tensão constante na estética fotográfica entre o “isso foi” e o “isso foi encenado” da qual a fotografia de família não foge.”[2]
Em uma de nossas viagens ao Mato Grosso, na qual também levei minhas máquinas fotográficas, tirei várias fotos das sobrinhas netas e do sobrinho neto. Uma delas, das sobrinhas, me surpreendeu pela beleza nas fotos e pela espontaneidade diante da câmera! Tudo parecia uma grande brincadeira!
 Acredito que o relatado aqui, em boa medida, traduz a alma da fotografia documental de família, que trabalha com o registro do cotidiano das famílias em situações muito próximas, ou idênticas, as da vida real deles, com pessoas queridas, amigos, sem pompas, sem poses, sem luzes especiais, com esta relação de intimidade e proximidade entre todos, que estão naquele ambiente, usufruindo daquelas horas em conjunto, conversando, rindo, se divertindo, brincando.

Para se ter esta relação intimista com os fotografados, claro, um fotógrafo profissional necessitará de um tempo de “ensaio” junto à família, o que, nos casos relatados, eu não precisei, pois somos todos da mesma família. No caso de minhas sobrinhas netas eu já as tinha visto uma outra vez, logo, havia esta relação de amor própria da família.
CRUZ acredita que um dos principais motivos para a forma tradicional de fotografia de família sobreviver hoje é justamente por sua indexicabilidade.
Mesmo com o advento da fotografia digital, este tipo de fotografia, registro da história familiar resiste, mas atualmente convivendo registros em mídias, nas quais ficam armazenados, bem como nos álbuns, muitas vezes, feitos por fotógrafos profissionais, que se especializaram em registrar um dia, um passeio, uma semana, de uma família.
Com esta possibilidade de fazer inúmeras fotografias e armazená-las no computador, HD externa, pen drives, nuvem, etc, você ainda vê alguém mandar imprimir fotos para guardá-las, carinhosamente, em um álbum?
Há muito tempo a fotografia era algo quase inacessível para muita gente, devido ao custo das mesmas, pois era uma tecnologia cara, bem como os fotógrafos eram raros.
Vendo, recentemente, uma exposição no MuHP, pensava nestas questões ao ver cópias de fotografias de acervos de famílias conhecidas e tradicionais da cidade. Nestas réplicas, em sua maioria, os registros eram de família inteiras reunidas, onde se encontravam os avós, pais, filhos, netos, bisnetos. Ou então algumas com os pais e os filhos. Todos os fotografados, em especial os adultos, todos muito bem vestidos! A fotografia era um momento especial, muito aguardado! Era algo ritualístico! Nestas fotos se pode notar os fotografados muito sérios, olhando para a câmera, inertes! Imaginem se alguém sorrisse ou piscasse os olhos? Se perderia a imagem!
Em algumas destas imagens a gente pode notar, que não havia muita preocupação, em algumas delas, com a criança, se ela estava bem vestida, se estava calçada.
Muito provavelmente estes acervos estavam em álbuns ou então naquelas capas cinzas e grossas e cobertas por um delicado papel de seda, que contribuía para a conservação desta relíquia, ou seja, da eternização da família reunida, do jovem casal e seus filhos, dos avós e seus muitos netos! Não conheci pessoalmente nenhuma destas famílias. Nem conheço suas histórias de vida.



 Ao ver a foto da família Moscogliato me veio à mente certa manhã, na qual caminhava com um grupo de amigos, pela cidade, pudemos conversar com uma simpática senhora de cabelos muito brancos, que se debruçou na janela de sua casa, conversou um pouco conosco, depois nos convidou a entrar e conhecer sua casa. Uma casa antiga, localizada na Avenida General Telles, de pé direito muito alto, bem ventilada, com móveis antigos, que possui um porão, no qual se localizam quatro salas de aula. Esta senhora nos levou a conhecer os fundos do quintal da casa, onde existiam várias árvores frutíferas e pudemos, então, comer jabuticabas no pé. Em outros dois espaços abertos também haviam lousas. Quem era esta senhora? Sra. Ana Moscogliato, agora falecida, ex-professora, que junto com a irmã, Elda Moscogliato fazem parte da história da educação em Botucatu.
Por que relatei isto?
Para demonstrar o quanto uma fotografia é um importantíssimo suporte a nossa memória, tal como nos ensina Joana Sanches Justo:

“O diálogo que a fotografia proporciona é, portanto, uma possibilidade de entrar em contato com questões, de se colocar frente a si mesmo e reconstruir-se, através da imagem fotográfica que, tal como a imagem nos sonhos, abre caminho para a expressão do sujeito, de sua subjetividade e dos significados construídos coletivamente pelos grupos dos quais faz parte.”

Pensando na fotografia digital, que em sua maioria não são impressas, mas ficam armazenadas em mídias diversas de duração incerta e duvidosa, pergunto: “O que será de nossas histórias  de família, de sociedade, de hábitos, da moda, se não tivermos um suporte, que nos permita, futuramente, resgatá-las, revê-las, estudá-las ou admirá-las?”

Referências:

CRUZ, Nina Velasco e. Fotografia de família e memória:
deslocamentos da arte contemporânea. Discursos fotográficos, Londrina, v.7, n.11, p.137-155, jul./dez. 2011
Imagens da Família Moscogliato, Família Francisco Lopes e Família Paleóloges Guimarães expostas no MuHP – Museu Histórico e Pedagógico de Botucatu, durante a exposição Retratos de Família, em junho de 2018.
JUSTO, Joana Sanches. OLHARES QUE CONTAM HISTÓRIAS: A fotografia como memórias e narrativas da família. Unesp-Assis: 2008. (Dissertação de Mestrado)
 Revista Discursos Fotográficos pode ser acessada no site da Universidade de Londrina-UEL, onde se encontram todas as publicações existentes da mesma.

Expediente:
MuHP - Museu Histórico e Pedagógico Francisco Blasi
Av. Santana (dentro do Espaço Cultural), Botucatu, SP



[1] CRUZ, Nina Velasco e. Fotografia de família e memória:
deslocamentos da arte contemporânea. Discursos fotográficos, Londrina, v.7, n.11, p.137-155, jul./dez. 2011
[2] Idem.

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