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Os heróis dos trens


 Não. Não fiz belas, poéticas e bucólicas viagens de trem. Aquelas viagens em trens que saíam das capitais e iam para outras cidades passando por belas paisagens, onde se viam muito verde, plantações, matas, casas simples, vacas pastando, pessoas elegantes nas estações de trem à espera do seu transporte para algum lugar.
Conheci este meio de transporte, mais de perto, após me mudar para uma cidade do Grande ABC, vizinha à capital, São Paulo. Utilizei o trem por muitas vezes aos finais de semana para ir até a capital e visitar alguns Museus, ir até a Santa Ifigênia comprar algum eletrônico, na época, o forte era a venda de som para carro, televisões, vídeo cassetes (você sabe o que é isto?).
Outras vezes, muitas, utilizei-o para ir participar de orientações técnicas, cursos e capacitações, que duravam de dois a cinco dias. As vezes ocorriam no Bairro do Bom Retiro, outras vezes em Perdizes, Campos Elíseos.
Nestas ocasiões, durante a semana, vivenciava a vida real das pessoas, que utilizam este transporte público diariamente para ir trabalhar. O trem já vinha lotadíssimo de Mauá. Quando parava na estação da cidade onde morava, a plataforma lotada, também, as portas se abriam e era aquele espetáculo de falta de educação de muitos. Os que estavam dentro se empurravam para tentar sair, os que estavam fora, se seguravam na lateral da porta para não cair, não ser levado, conseguir entrar no trenzão.
A maior parte destas viagens fazíamos em pé, pois não havia lugar vazio para nos sentarmos. Muitas vezes não havia nem onde segurar. Também não havia como mover os pés para encontrar uma posição mais confortável!
O que lembro destes momentos? “Flashes”. Uma ou outra pessoa com um livro na mão. Um ou outro sujeito com o jornal Agora, se deliciando com as notícias escritas de forma sensacionalista para uma leitura rápida. Pessoas desmaiavam por falta de ar, acredito! Vi algumas vezes esta cena. O cheiro. Este povoa minhas lembranças. O cheiro em cada vagão dependia das pessoas, que se aglomeravam como sardinhas. Havia aquelas pessoas, em geral homens, que já vinham cheirando a bebida alcoólica. Outros cheiravam a falta de banho. Sim, falta de banho. Não era aquele suor normal, de quem tomou banho, mas em meio ao amontoado de pessoas, calor, aperto, transpirou e molhou a roupa recém vestida. Era aquele odor de semana ou mais sem tomar um belo banho. Havia também aqueles homens, que se aproveitavam do aperto para se encostar ainda mais nas mulheres.
As cenas bucólicas? Neste trajeto não há paisagens bucólicas. Na maioria das vezes nestas viagens durante os dias úteis não conseguíamos ficar perto das janelas do trem para ver a paisagem. Esta ainda lembro. Em alguns trechos os enormes barracões, que, em tempos antigos, guardaram a riqueza de São Paulo, que saía das inúmeras fábricas e percorriam os trilhos. Atualmente muitos deles abandonados. Como o prédio imenso da antiga fábrica da cerveja Antártica. Em outros se viam, ainda se veem, as casas muito humildes, que foram construídas à revelia do poder público, às margens da linha férrea, todas elas muito estreitas, dois, três andares, grudadinhas umas nas outras, os encanamentos saindo pelos muros e entrando no espaço público das linhas. Outras ainda bem precárias. De madeirite. Ficava imaginando como elas sustentavam o peso dos móveis e das pessoas lá dentro. Como será que elas ficavam com o trepidar gerado pelos trens, que se revezavam pelos trilhos em curtos espaços de tempo?
Fiz algumas viagens aos finais de semana. Outra realidade. Nestas as pessoas iam confortavelmente sentadas. Sem empurra-empurra, sem atropelos. Sem vendedores ambulantes nos corredores gritando estridentemente para vender seus produtos. Famílias, jovens, idosos, enfim pessoas, que iam passear, visitar algum parente, usufruir das possibilidades de lazer da cidade de São Paulo. Podíamos respirar melhor, pois as janelas ou o ar condicionado, mais recente, conseguia dar conta desta quantidade de pessoas. Podíamos olhar pela janela e observar detalhes não vistos na paisagem urbana. A bela arquitetura de algumas estações, como a da Luz, a Julio Prestes. Uma igreja ortodoxa, mais alta do que a rodovia, em um bairro qualquer, cujas torres, muito diferentes, se destacavam das demais construções. O trenzinho restaurado na Hospedaria dos Imigrantes. Ficava imaginando como seria fazer um passeio nele. Maria Fumaça à vapor. Vagão de passageiros de madeira. Saudosismo de algo que não vivi.
Certa vez assisti uma entrevista da Irene Ravache, atriz, que morou, na juventude nesta cidade do ABC. Ela contava que, muito jovem, teria ido, de trem, à São Paulo para trabalhar. Entrou no vagão, vestida como sempre, provavelmente roupas curtas. Segundo ela ao vislumbrar os trabalhadores, as pessoas, conheceu um outro mundo. Todos a olharam, de cima em baixo, olhos desconfiados, talvez interesseiros, olhares maliciosos.
Quem, como eu, veio de cidadezinha do interior, onde nem se pensava em trem, não se conhecia a rotina estressante de cidade grande, o corre corre, o aperto desumano nos vagões dos trens, os semblantes cansados dos trabalhadores, não sabe o que é isto. Assusta-se, ao vivenciar, cenas como as relatadas por mim.
Nestas viagens a trabalho, quando ia com outros amigos, sempre comentávamos o quanto estas pessoas sofrem, por fazer diariamente estas viagens em condições tão precárias, sem conforto praticamente nenhum. São Heróis!

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