Pular para o conteúdo principal

João Delfiol Construções

João Delfiol Construções

Luz ofuscante


Aqueles irmãos, como todos de sua época, cresceram ouvindo histórias nas rodas de conversa da família, ora ouvindo os tios, ora ouvindo avós. As conversas sempre aconteciam depois da “janta”, enquanto as mulheres lavavam as panelas, os homens e as crianças sentavam para jogar conversa fora.
Nessas horas as histórias eram muitas, da família, dos conhecidos, dos amigos, dos vizinhos, reais, fictícias. Podiam ser de assombração também! As crianças sempre ouviam e não perdiam um só detalhe, mas o problema era dormir depois das histórias de lobisomem, saci, mula sem cabeça e tantas outras. O risco era mijarem na cama de tanto medo ao menor sinal de sombras se movendo pela parede do quarto, iluminado apenas pela luz titubeante do lampião ou da lamparina, comuns naqueles tempos em que energia elétrica ainda nem era sonho nesse noroeste do Paraná.
E os irmãos? Filhos de italianos, também se casaram e foram morar com suas esposas onde? Na colônia do pai, onde cada filho tinha sua casa. As casas todas de madeira enfileiradas naquele pedaço de chão conseguido com tanto trabalho.  Nesse lugar, familiar, aconchegante, mas de muitas brigas, de muito amor, de algumas ameaças, mas de muito cuidado de uns com os outros, nasceram e cresceram dezenas de crianças, filhas desses casais.
Mas o que faziam essas pessoas nesse lugar distante? Sem civilização? Sem televisão? Sem novela?
Os homens saiam à noite para irem jogar bocha, jogar truco,  tomar uma branquinha, um vinhozinho, que ninguém é de ferro! As mulheres? A essas cabia cuidar das crianças, ora essa! Cabia também cuidar da casa: lavar roupa no riozinho distante, limpar a casa, “ariar” os alumínios (panelas, caldeirões, etc), dar comida pras galinhas, porcos... Já cansou? É, naquela época elas não conheciam essa palavra, porque além de tudo isso, trabalhavam na roça com seus esposos.
Mas falávamos dos irmãos. Esses, Orlando, Otávio, João Batista, Valentim também trabalhavam muito na roça, mas havia os momentos de lazer. Num desses momentos, numa noite, resolveram andar uns quilômetros até uma venda em um “patrimônio” próximo para jogar truco com uns amigos.
Era uma sexta-feira, 13 de junho, dia de Santo Antônio, que com certeza abençoaria a festa deles. Saíram cedo de casa, porque queriam aproveitar bem a noite. Andaram mais de uma hora, com passos largos, enérgicos. Caminhada de quilômetros que não parecia muito, porque havia muito o que conversar.
Chegaram no arraial, fizeram as duplas, e o jogo de truco pegou fogo! Tanto que não perceberam o adiantado da hora, quando olharam no relógio, era quase meia noite!
Resolveram queimar o chão. Fazer rastro. Ou seja: ir embora. Escolheram uma estradinha, dessas de terra, com muita plantação dos dois lados, ou mato dos dois lados. Olhavam pro céu, a lua se escondendo atrás das nuvens abundantes em noites de inverno, só ficava então aquela luminosidade pálida, que nem se podia dizer que iluminava.
Andaram, andaram, conversaram, conversaram, riram, andaram, andaram, riram. De repente o João Batista falou que precisava urgentemente tirar a água do joelho. Pararam no meio dessa estradinha, ficaram esperando enquanto o Batista, fazia suas necessidades. Ele, o Batista, lá, tranquilo, agachado, já procurando a folha de mamona. Passa a mão pra cá, passa a mão pra lá, até que achou as folhinhas salvadoras. Quando já estava se limpando, de repente olhou por cima da plantação e viu! Não acreditava! Fechou os olhos, abriu, esfregou os olhos... nada! Aquela coisa vinha vindo. Sem esperar, saiu correndo do mato, já com as calças erguidas, gritando “corram, corram”. Os irmãos se entreolharam, mas ninguém se mexeu. Acharam que fosse alguma brincadeira, afinal o Batista era um gozador. Ele continuava gritando “corram, seus bestas, vocês não estão vendo? Olhem pra trás!” Todos olharam por cima das árvores e viram aquela luz imensa, muito brilhantes, que vinha, não se sabe de onde, vinha sobrevoando tudo: mato, plantação, bicho, gente. Era como uma bola de fogo imensa, mas que não queimava, apenas brilhava, brilhava muito. O que era isso? De onde vinha? Ninguém nunca soube. O que se sabe é que cada um deles correu o mais que pode, chegou em casa esbaforido, sem ar, sem sangue no rosto, sem palavras, entrou correndo, fechou a porta, deitou na cama, com roupa e tudo, cobriu a cabeça com o cobertor, fechou os olhos com muita, muita força, tampou os ouvidos com as mãos, para só acordar no dia seguinte.lia, ora ouvindo os tios, ora ouvindo av

P.S. Homenagem aos quatro irmãos (Orlando, João Batista, Valentim, Otávio), que agora, jogam truco no céu...

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Dicas sobre provas para eliminação de matérias e ENCCEJA E ENEM

Escrevi uma postagem com dicas para concurseiros de primeira viagem, mas analisando os atendimentos diários que faço no meu trabalho, pensei em escrever outro(s) texto(s) com dicas ou orientações sobre outros assuntos, pois mesmo com tanta informação disponível, as pessoas continuam sem conhecimentos básicos, que podem ajudá-las a resolver problemas simples do seu cotidiano, que vão desde onde procurar a informação, como também onde cobrar seus direitos. Para começar esta série de textos, vou falar um pouco das provas para eliminação de matérias. As pessoas buscam muito este tipo de avaliação, na qual, desde que atinjam as médias, eliminam todo o ensino fundamental ou todo o ensino médio. Para quem pretende eliminar o ensino fundamental - Ciclo II (antigo ginásio, 5ª a 8ª série, 6º ao 9º ano atualmente) poderá fazê-lo por meio do Encceja, que é uma avaliação de eliminação de matérias, ou seja, o candidato pode ir eliminando áreas (Linguagens e Códigos, Ciências da Nat...

Botucatu e o apagamento da História da Arquitetura

  A cidade de Botucatu está passando por um processo de crescimento populacional, bem como de mudanças, devido aos empreendimentos habitacionais na cidade, assim como políticas públicas, que impactam no cotidiano dos moradores. Isso tudo também acaba impactando da arquitetura antiga existente (ainda!) na cidade, pois há uma política silenciosa de deixar as casas e casarões antigos abandonados, assim o próprio tempo se encarrega de levá-los à ruína total e desabamento, como tem acontecido com prédios comerciais, assim como com residências, o que tem sido noticiado pela mídia local e regional. Recentemente houve um caso, que gerou grande envolvimento da sociedade preocupada com essas questões do patrimônio histórico e arquitetônico da cidade. Foi o caso do início da demolição de um casarão de estilo eclético na avenida Floriano Peixoto, ao lado do Poupatempo e ao lado da Zilogás. Esse casarão começou a ser desconfigurado pelos atuais proprietários, segundo soube na época, a inten...

A falácia da desburocratização pela informática no serviço público

  Vou abordar nessa postagem a propaganda da desburocratização no início da implantação da informática nas escolas públicas na rede onde atuo até esse momento. Primeiro vou contextualizar para você, leitor, de onde meus pés pisaram e pisam. Trabalho no serviço público desde 1992, arredondando e sem entrar em detalhes, quase 34 (trinta e quatro) anos. Por que falo isso? Para ninguém achar que não tenho conhecimento real, prático e histórico sobre o assunto. Na metade dos anos 1.990 acompanhei a chegada dos primeiros computadores na rede, nesse momento, para a parte administrativa e a propaganda era de “agilização de processos”. Nessa época era muito comum ficarmos vários meses sem receber salário ou recebendo parte dele por erros da secretaria do órgão local em questão. Nessa época eu iniciava a minha carreira profissional como contratada. Posteriormente, ano 2.000, me efetivei. Não imaginava que essa simples mudança de status de contratada para efetiva me traria problemas f...