domingo, 16 de dezembro de 2018

Memória e leitura


Tenho observado muitos idosos nos corredores da Unesp. E crianças também. Os idosos têm me chamado a atenção, pois minha mãe, também, idosa, teve uns problemas de memória recentemente.
Ela teve uma vida duríssima. Nunca estudou em escola formal, o que significa dizer, que nunca entrou em uma escola. Quando criança, meu avô, no agreste do Pernambuco, optou por estudar somente a filha mais nova, que não prosperou nos estudos. Para minha mãe, ao que soube, foi pago uma professora para ensinar as primeiras letras, desta forma, ela lê decodificando, escreve pouco. Quando era mais jovem, escrevia mais e lia mais, porque por algum tempo foi costureira e usava a escrita e a leitura para fazer registros das medidas das roupas de suas clientes.
Não. Nunca estudou corte e costura. Aprendeu a costurar na roça, quando se casou com meu pai e teve que costurar as roupas dele, à mão, além de ajuda-lo na lavoura, lavar, passar, cozinhar, tirar água do poço e cuidar de quatro filhos. Apesar disto, costurava muito bem. Bordava muito bem, tanto à mão quanto na máquina de costura. Fazia crochê com excelência.
Por que digo fazia? Com o tempo e a vida mais dura ainda, deixou estes afazeres, que foram esquecidos, apagados de sua memória. Recentemente tentei que ela retomasse o crochê, ao menos para ocupar a cabeça e passar o tempo. Por pouco tempo deu certo. Comprava toalhas de mão, guardanapos, linhas e ela crochetava biquinhos nestes panos, que eu ia dando de presente as minhas cunhadas. Fiquei com alguns. Minha mãe também. Ela acabou “se enchendo” e parou com os panos e as linhas.
Leitura? Lê somente a bíblia. Após a morte de meu pai se tornou evangélica e isto fez com que a única leitura dela fosse esta.
Não conseguiu aprender a usar o celular. Já tentou algumas vezes. Há cerca de um mês um de meus irmãos deu um celular mais simples para ela. Com números grandes, pois ela tem dificuldades visuais. Usa óculos. Aparentemente não conseguiu, até o momento, atender nenhuma ligação dele.
Como falava observo outros idosos no corredor do hospital da Unesp, algumas vezes. Outro dia vi um senhor, que aguardava consulta. Ele estava ao meu lado, por isto pude observar muito bem o que fazia. Enquanto esperava, utilizava um celular, destes que se toca na tela para acessar os aplicativos, tipo ipad. Acessou o facebook. Deu uma lida em algumas coisas no jornal. Fazia isto com muita facilidade e habilidade. Não conversamos, mas quase posso afirmar, que este homem, no decorrer de sua vida, foi um leitor ativo, ainda o é, tanto, que utiliza o celular para se informar, não apenas para banalidades.
Outro dia vi uma idosa, que esperava ser chamada para a consulta, como muitos também manuseava um aparelho de telefonia móvel. O que ela estava fazendo? Jogando cruzadas, usando um aplicativo.
Poderia citar inúmeros exemplos.
O que diferencia minha mãe destas pessoas? A leitura!
Minha mãe se distanciou cada vez mais dela. A leitura dela foi  ficando cada vez mais restrita! Antes de se tornar evangélica, ainda demonstrava interesse em ler uma revista. Hoje em dia nem isto!
Sem a leitura fluente ficamos alheios ao mundo da informação, que nos cerca! Sem a leitura fluente, se quer podemos dirigir um carro, pois em uma rodovia a velocidade para a leitura de placas, que se exige do motorista, não permite decodificação letra por letra.
Quando adolescente li alguns clássicos da literatura brasileira, que eram solicitados na escola. Esta leitura nos obrigava uma consulta constante ao dicionário, devido ao tipo de vocabulário das narrativas.
Com o passar o tempo estes livros tiveram sua escrita adaptada para jovens, o que corresponde dizer, que tornaram a escrita mais simples e acessível. Muitos alunos passaram também a ler somente os resumos e não as obras originais.
E você que está lendo este texto. O que está fazendo pela sua memória? Teve dificuldades para entender o conteúdo desta postagem? Procura ler diariamente? Procura pesquisar os significados das palavras que desconhece?
Não pode falar que não tem dicionário e nem tempo. Os dicionários on line estão na web disponíveis para consultas rápidas. Tem também os aplicativos. Tempo? É muito rápido! Não deixe para depois, pois como a palavra é nova, provavelmente nosso cérebro a deletará e você perderá uma boa chance de incorporá-la ao seu repertório.

#memória   #leitura  #aprendizagem  





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