Super heroína: minha mãe


Pela nossa vida procuramos modelos, ídolos, heróis com super poderes, mas não vemos os heróis e heroínas ao nosso redor. Quem são? Onde se escondem? O que fazem?
Minha mãe é uma dessas pessoas: uma heroína! Por vários motivos, por isso falarei de alguns deles.
Retirante, aos 19 anos, em uma viagem muito longa, com quase toda família, deixou o interior do Pernambuco, Serrita, veio para o interior do Paraná, Terra Rica, naquele tempo ainda distrito de Paranavaí, pequenina, ruas de terra, casas de madeira, o mato sendo desmatado. Vida dura, sem conforto!
Casou-se aos 21, em um ano já tinha seu primeiro filho, enfrentava diariamente os desafios da primeira maternidade, os problemas com o marido, rude, mas trabalhador e honesto. Dois anos e pouco depois do primeiro filho, já tinha o segundo, mais dois anos, o terceiro filho, mais dois anos: eu nasci.
Nesta época ela tinha dupla jornada: na roça trabalhando na enxada ao lado de meu pai (dos filhos pequenos) e quando chegava em casa, ainda tinha todo o serviço doméstico para ser feito: lavar a roupa, limpar a casa, remendar as roupas, tirar água do poço para fazer a comida, dar banho nos filhos; a lenha para o fogão, a comida por fazer. Quanto trabalho, que rotina estafante!
Anos se passaram, por motivos de saúde meu pai vendeu seu sítio, mudamos para a cidade. Nessa época, ainda crianças, meus irmãos mais velhos já faziam pequenos trabalhos para ajudar a família: vender sorvete na rua, vender laranja nos jogos de futebol no campo próximo; separar café para vender; cavar minhocas.
Minha mãe? O que fazia? Todo o serviço da casa, além de enviar os filhos para a escola, lavar sempre e passar suas roupas, uniformes, levar os menores até a escola, ir às reuniões de pais. Com pouco estudo, pois nunca estudou em escola formal, assumiu uma profissão: costureira. Começou a costurar para fora, para as vizinhas, conhecidas, tias. Com essa atividade podia ajudar a manter a casa, comprar roupas para nós, calçados.
Mais alguns anos se passaram: perdemos tudo. Ficamos sem casa, sem teto. Os irmãos mais velhos se casaram, se mudaram para São Paulo. Agora com dois filhos de 14 e 16 anos, grávida de gêmeos, marido desempregado, começaria mais uma etapa dura. Por um tempo muito o filho, agora mais velho na casa, passou a ajudar (e muito) a manter a casa, pois trabalhava em dois empregos: um durante o dia, outro à noite. Quando chegava em casa, ainda ajudava a cuidar dos gêmeos, junto com a irmã, que fazia esse trabalho parte do dia, quando voltava da escola.
A mãe agora com filhos crianças novamente, recomeçava mais uma vez uma luta diária.
Mais alguns anos, o filho que restava em casa, se mudou para São Paulo, posteriormente a filha também. Minha mãe ficou com duas crianças, marido já em outro Estado, viu como saída para ganhar a vida o trabalho de doméstica.
Mais alguns anos, trabalhava diariamente nas casas de pessoas de posses da cidade, enquanto os filhos pequenos ficavam sós em casa, eram responsáveis por se alimentar, ir pra escola, fazer as tarefas.
A filha retorna, um ano trabalhando no interior de São Paulo, ao final do ano uma boa notícia: um dos filhos comprara duas casas em Santo André, uma era para a mãe morar.
Nova mudança. Por alguns anos os filhos, dois deles, ajudavam-na todos os meses com as despesas da casa: alimentação, contas de água, energia.
Novamente ela precisou voltar a trabalhar e voltou a ser costureira, mas agora ganhando muito pouco, trabalhando para oficinas de costura, que por sua vez pegavam o serviço de coreanos do Brás, que pagavam uma miséria por cada peça pronta. Ela não desistiu!!!! Se manteve forte, lutando!
Os filhos adolescentes estudando, ora trabalhavam, ora sem emprego, como todo adolescente brasileiro.
Agora, 2010, com 72 anos, continua apoiando e amparando os filhos, ajudando a criar as netas.
Essa é minha heroína, que mesmo com todos os problemas acima,  com uma vida dura, nunca desistiu de ser mãe, nem desistiu dos seus filhos, nem de educá-los, de vê-los estudando!
A minha mãe, Margarida, dedico esse texto!

Comentários

catléia disse…
Del,
Lindo e emocionante este texto sobre sua mãe, lembrei da minha mãe que também foi uma lutadora e nos deixou muitos exemplos que seguimos até hoje. Parabéns a todas estas mulheres maravilhosas que tanto trabalharam e nunca abandonaram seus filhos. Linda homenagem.
Sua amiga Berna.
(Cópia de comentário enviado pelo msn em 16/09/2010)
erro nas meidas disse…
Maravilhoso!!!Homenagear a mãe é algo louvável, melhor ainda quando a temos do nosso lado...
Belo texto!!!
catléia disse…
Obrigada pelo elogio! Realmente ter nossa mãe ao nosso lado é um grande presente de Deus!
Volte sempre ao meu blog!!!