Concurso Leia Comigo

Participei do Concurso Leia Comigo, da FNLIJ, mas não fiquei no seleto grupo dos vencedores... não fiquei triste, pois é seletíssimo, tanto que em uma das duas categorias nem houve vencedor!
Mesmo assim, publico abaixo um dos textos que escrevi, esclarecendo que o tema do referido concurso teria que abordar necessariamente situações de leitura compartilhada. Podia ser um texto de uma situação real ou um texto fictício.


Leitura mágica


Ela estava em sala de aula. Realizava uma atividade de leitura com seus alunos da Educação Infantil. Escolheu, após votação pelas crianças, o conto de fadas “Cinderela.”
Abriu o livro, grande, bonito, colorido, com belíssimas imagens dos personagens. Mostrou a capa às crianças, falaram alguns minutos sobre o que viam. Em seguida, iniciou a leitura, modulando a voz de acordo com os personagens, fazia umas paradas estratégicas, perguntava para os pequeninos “o que vocês acham que vai acontecer agora?”, via as mãozinhas se levantando freneticamente para responder. Pergunta respondida, continuava a leitura. Assim lia a cada dia uma nova história. Às vezes pedia aos alunos para desenhar o personagem preferido, outras para contarem uma parte da leitura que mais gostaram.
Mas hoje, ao ler Cinderela, lembrou de sua infância.
A mãe, Maria, empregada doméstica, nunca pode comprar belos livros para ela, mas à noitinha sempre tinha um tempo para contar para a filha histórias que ouvira dos antigos. Esse momento do dia era mágico!
Todos os dias a mãe saía muito cedo para trabalhar, voltava cansada, ainda tinha os serviços da casa esperando por ela. A filha, Cíntia, fazia algumas tarefas, mas a mãe sempre falava “Não esqueça as tarefas da escola, porque aprender a ler é prioridade!”
A casa onde Maria trabalhava era imensa. Tinha um belo jardim, piscina, várias salas, uma cozinha imensa, banheiros lindos, cortinas belíssimas em todas as janelas. Mas nada chamava mais a atenção de Cíntia do que um cômodo grande, onde o patrão costumava passar horas, entretido com a leitura do jornal, dos clássicos. Isso mesmo: a biblioteca.
Quando os patrões viajavam, o que ocorria com certa frequência, Maria, trazia a filha para ficar com ela, assim ela poderia assistir Tv, nadar na piscina, brincar no jardim. As duas, cúmplices, também iam até a biblioteca. Lá, nesse lugar mágico, a mãe retirava alguns livros cuidadosamente das estantes, os colocava sobre uma mesinha, para a filha folhear, ler, ver as figuras. A mãe, que mesmo com pouco estudo, sempre amou os livros e a leitura, tirava um tempinho para ler para ela. Então Maria sentava-se na poltrona de couro, a filha sentava-se no tapete macio aos pés dela, os olhos e ouvidos atentos às palavras saídas dos livros. Maria lia os livros escolhidos pela filha, relia alguns, apresentava-lhe outros, a cada ida da filha novas descobertas aconteciam. A história preferida de Cíntia era a Branca de Neve, por isso sempre gostava de ouvir sua mãe lendo para ela. A mãe fazia a voz de Branca suave, doce, tranquila, mas firme e confiante. Conseguia inventar vozes diferentes para cada um dos anões, mas quando falava como a madrasta má, era aterrorizante. Como era gostoso esse momento! Fechar os olhos e entrar na história, imaginar o cenário: o castelo, a floresta, a casinha dos sete anões, cantar a música deles, sentir o gosto do beijo apaixonado do príncipe.
Esses momentos mágicos acabavam, por isso havia ainda organização dos livros nos seus lugares, porque o patrão era extremamente ciumento, após a leitura os volumes eram limpos, recolocados em seus lugares de origem.  Maria dizia para a filha nesses momentos: “Esse será o nosso segredo!”
Nessas ocasiões Cíntia se sentia uma  princesa de um reino encantado, como o da Cinderela, onde os livros eram seus cavaleiros alados, personagens os seus súditos, sua mãe, claro, a fada madrinha, mas ela, Cíntia, não precisava de um sapatinho de cristal, nem a mãe de uma varinha mágica. Bastava entrar na biblioteca e abrir um livro para começar o encantamento!
Quantas e quantas vezes esse reino encantado se descortinou diante dela! Como sentia-se feliz. Mesmo que não pudesse contar a ninguém, essa era a sua felicidade clandestina. Ela e a mãe viviam esses momentos de puro encantamento e cumplicidade e isso bastava.
De repente, ouviu uma voz distante, suave, chamando “Pro Cíntia, terminei o desenho”, quando olhou nos olhinhos da criança e se viu dentro deles, menina, sentiu vontade de chorar. Mas não o fez, pois poderia assustar seus aluninhos. Pensou no quanto era feliz, dividindo com eles o que sabia, principalmente o amor pela leitura e pelos livros.

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