Pular para o conteúdo principal

João Delfiol Construções

João Delfiol Construções

Concurso Leia Comigo

Participei do Concurso Leia Comigo, da FNLIJ, mas não fiquei no seleto grupo dos vencedores... não fiquei triste, pois é seletíssimo, tanto que em uma das duas categorias nem houve vencedor!
Mesmo assim, publico abaixo um dos textos que escrevi, esclarecendo que o tema do referido concurso teria que abordar necessariamente situações de leitura compartilhada. Podia ser um texto de uma situação real ou um texto fictício.


Leitura mágica


Ela estava em sala de aula. Realizava uma atividade de leitura com seus alunos da Educação Infantil. Escolheu, após votação pelas crianças, o conto de fadas “Cinderela.”
Abriu o livro, grande, bonito, colorido, com belíssimas imagens dos personagens. Mostrou a capa às crianças, falaram alguns minutos sobre o que viam. Em seguida, iniciou a leitura, modulando a voz de acordo com os personagens, fazia umas paradas estratégicas, perguntava para os pequeninos “o que vocês acham que vai acontecer agora?”, via as mãozinhas se levantando freneticamente para responder. Pergunta respondida, continuava a leitura. Assim lia a cada dia uma nova história. Às vezes pedia aos alunos para desenhar o personagem preferido, outras para contarem uma parte da leitura que mais gostaram.
Mas hoje, ao ler Cinderela, lembrou de sua infância.
A mãe, Maria, empregada doméstica, nunca pode comprar belos livros para ela, mas à noitinha sempre tinha um tempo para contar para a filha histórias que ouvira dos antigos. Esse momento do dia era mágico!
Todos os dias a mãe saía muito cedo para trabalhar, voltava cansada, ainda tinha os serviços da casa esperando por ela. A filha, Cíntia, fazia algumas tarefas, mas a mãe sempre falava “Não esqueça as tarefas da escola, porque aprender a ler é prioridade!”
A casa onde Maria trabalhava era imensa. Tinha um belo jardim, piscina, várias salas, uma cozinha imensa, banheiros lindos, cortinas belíssimas em todas as janelas. Mas nada chamava mais a atenção de Cíntia do que um cômodo grande, onde o patrão costumava passar horas, entretido com a leitura do jornal, dos clássicos. Isso mesmo: a biblioteca.
Quando os patrões viajavam, o que ocorria com certa frequência, Maria, trazia a filha para ficar com ela, assim ela poderia assistir Tv, nadar na piscina, brincar no jardim. As duas, cúmplices, também iam até a biblioteca. Lá, nesse lugar mágico, a mãe retirava alguns livros cuidadosamente das estantes, os colocava sobre uma mesinha, para a filha folhear, ler, ver as figuras. A mãe, que mesmo com pouco estudo, sempre amou os livros e a leitura, tirava um tempinho para ler para ela. Então Maria sentava-se na poltrona de couro, a filha sentava-se no tapete macio aos pés dela, os olhos e ouvidos atentos às palavras saídas dos livros. Maria lia os livros escolhidos pela filha, relia alguns, apresentava-lhe outros, a cada ida da filha novas descobertas aconteciam. A história preferida de Cíntia era a Branca de Neve, por isso sempre gostava de ouvir sua mãe lendo para ela. A mãe fazia a voz de Branca suave, doce, tranquila, mas firme e confiante. Conseguia inventar vozes diferentes para cada um dos anões, mas quando falava como a madrasta má, era aterrorizante. Como era gostoso esse momento! Fechar os olhos e entrar na história, imaginar o cenário: o castelo, a floresta, a casinha dos sete anões, cantar a música deles, sentir o gosto do beijo apaixonado do príncipe.
Esses momentos mágicos acabavam, por isso havia ainda organização dos livros nos seus lugares, porque o patrão era extremamente ciumento, após a leitura os volumes eram limpos, recolocados em seus lugares de origem.  Maria dizia para a filha nesses momentos: “Esse será o nosso segredo!”
Nessas ocasiões Cíntia se sentia uma  princesa de um reino encantado, como o da Cinderela, onde os livros eram seus cavaleiros alados, personagens os seus súditos, sua mãe, claro, a fada madrinha, mas ela, Cíntia, não precisava de um sapatinho de cristal, nem a mãe de uma varinha mágica. Bastava entrar na biblioteca e abrir um livro para começar o encantamento!
Quantas e quantas vezes esse reino encantado se descortinou diante dela! Como sentia-se feliz. Mesmo que não pudesse contar a ninguém, essa era a sua felicidade clandestina. Ela e a mãe viviam esses momentos de puro encantamento e cumplicidade e isso bastava.
De repente, ouviu uma voz distante, suave, chamando “Pro Cíntia, terminei o desenho”, quando olhou nos olhinhos da criança e se viu dentro deles, menina, sentiu vontade de chorar. Mas não o fez, pois poderia assustar seus aluninhos. Pensou no quanto era feliz, dividindo com eles o que sabia, principalmente o amor pela leitura e pelos livros.

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

A rotina na sala de aula I

Comecei lecionar em 1992, permaneci atuando em sala de aula até o início de 1997. Nesses anos tínhamos, em cada sala, uma parcela de alunos que não queria estudar, que vinham para a escola só para namorar, vagabundear, dizíamos que eles não tinham perspectiva de vida. Desses alunos, muitos ficavam anos e anos se matriculando na mesma série, assistiam alguns meses de aula, se evadiam, retornavam mais tarde para o curso noturno regular ou então para a suplência, por isso o curso noturno sempre foi bastante complicado, parecia que existiam duas escolas diferentes co-existindo em uma só. Anos se passaram, retornei para a sala de aula esse ano, 2010, em uma cidade do interior, mas sabendo que o alunado não seria muito diferente dos alunos de cidades grandes. A situação descrita no início desse texto, mudou muito, e para pior, pois temos agora em sala de aula uma maioria de crianças e adolescentes, que diariamente vão para a escola, porém sem a menor vontade de aprender, de estudar. Isso se...

Possibilidades

Hoje um amigo me perguntou se não estava mais publicando, porque não tem textos recentes no blog. Contei a ele que ontem estava escrevendo um, quando inesperadamente meu computador travou, quando voltou a funcionar... cadê o texto? Sumiu! Não estava de jeito nenhum nos arquivos recuperados. Você pode perguntar, por que não salvou? Por quê? Porque quando estamos escrevendo, planejando, pensando, repensando, as palavras vão fluindo, fluindo e nossos dedos parecem ter uma ligação mágica com nosso cérebro, de tal forma que o pensamento vai tomando forma, vida. Este tomar forma é algo realmente mágico! Iniciamos um texto, podemos ter de início, um plano, uma ideia na cabeça. Quando começamos a escrevê-lo, ele vai nos mostrando a direção para onde quer ir. Neste que você lê, talvez não enxergue esta mágica acontecendo, pois o verá acabado, formatado, concluído, diferentemente dos rascunhos, feitos à mão, dos escritores de outrora, nos quais se via o processo criativo, que se mostrav...

Anúncios de empregos: erros absurdos

Já escrevi um texto falando dos absurdos que lemos diariamente na internet, até mesmo em sites de empresas, que em tese deveriam se preocupar em não cometer erros grosseiros para não manchar a imagem. Hoje lendo alguns anúncios de empregos em um site local, mas que além de anúncios de vagas de empregos, presta outros serviços, vi  um anúncio, no mínimo, curioso! Como você, candidato a uma vaga de emprego, imagina que tenha que entregar seu currículo? Quais as formas para fazer isto? Acredito que possa ser pelo correio tradicional. Você colocaria seu currículo em um envelope, iria até a agência dos correios mais próxima, postaria sua correspondência para a empresa. Outra forma seria dirigir-se até a empresa ou a agência de recursos humanos e entregar o documento pessoalmente. Uma outra forma mais moderna e rápida seria anexar o documento a uma mensagem de e-mail e enviá-la para o endereço eletrônico da empresa contratante. Você conhece mais alguma forma? Eu não, mas ne...