quarta-feira, 12 de maio de 2010

A rotina na sala de aula I


Comecei lecionar em 1992, permaneci atuando em sala de aula até o início de 1997. Nesses anos tínhamos, em cada sala, uma parcela de alunos que não queria estudar, que vinham para a escola só para namorar, vagabundear, dizíamos que eles não tinham perspectiva de vida.
Desses alunos, muitos ficavam anos e anos se matriculando na mesma série, assistiam alguns meses de aula, se evadiam, retornavam mais tarde para o curso noturno regular ou então para a suplência, por isso o curso noturno sempre foi bastante complicado, parecia que existiam duas escolas diferentes co-existindo em uma só.
Anos se passaram, retornei para a sala de aula esse ano, 2010, em uma cidade do interior, mas sabendo que o alunado não seria muito diferente dos alunos de cidades grandes.
A situação descrita no início desse texto, mudou muito, e para pior, pois temos agora em sala de aula uma maioria de crianças e adolescentes, que diariamente vão para a escola, porém sem a menor vontade de aprender, de estudar.
Isso se observa no comportamento deles: falam o tempo todo, conversam com os amigos durante todos os 50 minutos da aula; o pior, quando o professor tenta explicar o conteúdo que está na lousa, isso piora, falam mais e mais alto, mesmo o professor gritando, pedindo silêncio, utilizando diferentes técnicas para atrair a atenção deles, tudo resulta em nada.
Já tentei explicar o conteúdo a partir de uma palavra, buscar o que sabem sobre ela, para ir aprofundando, até chegar a uma definição/conceito. Não funcionou!  Participam somente aqueles alunos (pouquíssimos!) interessados, que normalmente participam de tudo, os demais, mesmo para as questões mais simples: simplesmente respondem “não sei!”.
Já tentei atividades em grupo, conforme sugestão do material do sistema de ensino, mas se transforma no caos e o rendimento é quase nada, pois aproveitam o tempo somente para conversar sobre os mais variados assuntos, mesmo o professor circulando pela sala de aula, chamando a atenção, parando nos grupos, acompanhando... é frustrante!
Tentei dar aulas usando o data show, preparei o material, levei o data show, notebook, telão e quilos de fios para conectar os equipamentos. Como a escola não tem sala ambiente, não tem um auditório (sala multimídia), ou seja, um espaço onde pudesse deixar os equipamentos montados, deslocar as turmas para lá, tive que montar e desmontar o equipamento a cada troca de aulas. Resultado: uma perda enorme de tempo até ligar tudo, antes do final da aula desligar tudo, embalar, enrolar, sair correndo pra outra sala e começar tudo de novo. Enquanto eu mesma montava os equipamentos, eles conversavam, palpitavam formas de ligar e desligar (a maioria nem tem computador em casa!), levantavam-se, andavam pra lá e pra cá, mesmo eu pedindo a colaboração, o silencio, nada! Um trabalho enorme, estressante, para menos de 10 minutos de fala!
Comecei o bimestre lendo, a cada início de aulas, textos literários; contos, crônicas... nas primeiras vezes isso foi novidade, participaram um pouco, ouviram. Não demorou muito, mesmo fazendo uma leitura teatralizada, mudando vozes, gesticulando, mudando o tom de voz, o desinteresse se mostrou, começaram a conversar, não ouvir. Mesmo a leitura sendo feita em trechos, chamando-os à participação com questões, nada!!!
Aquele processo de ensino de aprendizagem onde há uma perfeita interação entre professor e aluno, um processo dialógico, no qual ambos aprendem, onde o primeiro vai tornando-se responsável por seu aprendizado... onde está?
De repente podem pensar, os leitores, que isso é problema de um único professor, despreparado, desmotivado, que não tenta diversificar suas aulas... não, senhores! Ouço as mesmas reclamações de colegas da mesma escola, que atuam no ensino fundamental II (5ª a 8ª) como eu, que atuam no Ensino Médio na mesma escola e em outras unidades escolares na mesma cidade e em cidades próximas.
O que vai ser desses adolescentes? Para onde irão? O que irão fazer no futuro? Que tipo de emprego/ocupação terão?


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