quinta-feira, 30 de setembro de 2010

História de Aninha





Aninha era uma criança, como tantas outras crianças pobres, que nas cidades grandes existem aos milhares nas periferias. Como todas elas também frequentava escola. Como todas elas também não tinha muitos livros em casa, seus pais não liam jornais, revistas, porque ter acesso a isso significaria deixar de comprar todo mês três pacotes de arroz, ou ainda cinco pacotes de feijão de dois quilos, o que para eles seria impensável, porque a família era composta de pai, mãe, três crianças, ela, Aninha, era a mais nova.
Ela lia na escola. Lá ela tinha acesso aos livros. Didáticos. Esses ela levava para casa, utilizava para fazer as lições da escola. Nesses livros havia algumas histórias completas, porém outras tinham somente parte delas, isso a deixava frustrada. Cadê o final? Como seria? O que aconteceria com os personagens?
Aninha morava em um bairro, como muitos das periferias das grandes  cidades, onde não havia parques, praças, cinemas, teatros, bibliotecas. Ela só ia ao teatro nas pouquíssimas vezes que a escola recebia convites, ônibus, podia então leva-los ao teatro no centro da cidade. Fora isso a referência que ela tinha de teatro eram as peças montadas pela professora, que eram apresentadas no pátio, em datas especiais, para as quais os pais eram convidados, mas nem sempre compareciam.
Aninha tinha amigos, na escola, no bairro. Todos viviam a mesma realidade. Ela era diferente. Ela sentia um desejo, uma vontade, uma curiosidade, que a invadia todas as vezes que, na escola, passava diante daquela porta grossa, escura, de ferro, onde se lia “Biblioteca Monteiro Lobato”.
Um dia não agüentou e perguntou a professora:
- Dona Rita, quem é esse tal Monteiro Lobato? O nome da porta de ferro?
A professora, atenta aos conteúdos de Língua Portuguesa no quadro negro, respondeu:
- Foi um escritor de livros infantis. Acho que vocês já devem ter lido um ou outro texto dele no livro que usamos. Não se lembra?
Ela virou-se para a lousa e continuou a passar o conteúdo da terceira série: substantivos, adjetivos, verbos...
A D. Rita dizia que eles utilizariam muito tudo isso na quinta série, ou como se chamava agora, sexto ano.
Na cabeça de Aninha continuava aquele ponto de interrogação: quais os livros que Monteiro Lobato escreveu? Onde estariam?
E os dias seguiam, um após o outro, lentamente, aquelas manhãs longas a desfiar os substantivos, sobrecomuns, derivados, de dois gêneros... o que significaria tudo isso? Ela continuava copiando, copiando, copiando, copiando...
Um dia, no horário do intervalo, naquele alvoroço, naquela correria, em que os alunos quase se chocavam uns nos outros, aquela gritaria, surgiu, pela porta principal, uma mulher, de óculos, andar firme, e dirigiu-se para a Direção.
Logo o boato se espalhou... era a nova vice-diretora. Aninha e os amigos, Joãozinho, Paula, Claudia, Yasmin, se perguntavam: o que mudaria na escola?
Por um tempo não perceberam muitas mudanças, ela fazia o mesmo que as outras, atendia os alunos, atendia os pais, observava o intervalo, conversava com as inspetoras que cuidavam dos alunos nesses momentos, entregava material na secretaria, passava nas salas dando recados da direção, atendia os alunos machucados: dentes que caíram, arranhados, dor de cabeça, febre.
Um dia, ela, a vice-diretora, Maria, subiu as escadas, disseram que ela estava na Biblioteca. Aninha pediu para a professora para ir ao banheiro, porque estava com dor de barriga, subiu, também, as escadas correndo, pois queria ver a biblioteca por dentro.
Ao chegar lá, encontrou a porta aberta. O lugar estava meio bagunçado, desorganizado, e ela, a vice, estava lá, pegava um livro aqui, outro ali, abria, lia um trecho, olhava as imagens, ria, e Aninha ali, muda, olhando, sem fazer barulho. Até que a vice a viu, disse:
- Entra. Como é seu nome?
- Aninha.
- Já conhecia a Biblioteca?
- Não nunca entramos aqui. Por isso vim correndo quando vi a senhora subindo as escadas.
- Então sente-se um pouco, que vou ler um livro pra você.
Maria abriu o livro que tinha nas mãos, um fino, história curta, para poder ler a história toda para a menina curiosa. O livro era “Quem tem medo do ridículo?”. Ela lia cada palavra de uma forma, que Aninha ouvia deliciosamente como se fosse a mais bela música. Seus olhinhos brilhavam. A voz de Maria subia e descia, a entonação mudava de acordo com a pontuação, fazia paradas, perguntava algumas coisas para Aninha. De repente sentiram uma presença atrás delas: era D. Rita, que estava ali parada, também ouvindo a leitura.
Assim começou a história de mudança naquela escola, fazendo da leitura o principal objetivo de todos os professores, alunos, direção, funcionários.
Assim começou e continuou pela vida afora o amor de Aninha pelos livros, pela leitura, que passou a fazer parte do seu cotidiano, NA ESCOLA, e também fora dela. Assim Aninha conheceu uma outra Aninha, aquela poeta, aquela que escreveu “Conclusões de Aninha”, muito conhecida como Cora Coralina.
Era isso... D. Maria ensinou os professores, os alunos, como no poema de Cora, a pescar. Mais do que peixes, a pescar muitas, muitas, palavras. 

(Texto escrito para participar do Concurso Leia Comigo-2010)

sexta-feira, 24 de setembro de 2010

Amigos-irmãos, irmãos-amigos

Há pessoas (estranhas) que vêm para nossa família. Essa vinda que deveria servir para trazer felicidade, agregar pessoas, trazer novas pessoas ao mundo, unir famílias... que pena! Nem sempre isso acontece!
Em geral essas “vindas” acontecem por motivos como: casamento, ou opção de morarem juntos, enfim, o nome, não importa muito. Acho que as convenções não importam muito. Há um bom tempo se vêem casais, que se casaram, como se dizia “no civil e no religioso”, mas que não duraram nem um ano, as vezes meses. Há também aqueles casos, em que o casal continua juntos, dizendo que é por causa dos filhos, as vezes mal se olham, outras vezes se olham e se desrespeitam, se xingam.
Essas pessoas por causa de suas frustrações, acabam por passar esse ódio, esse horror às crianças, fazendo um tipo de “alienação parental”, mas envolvendo os outros familiares: mãe, irmãos, cunhadas... Assim vai afastando a sua família (marido e filhos) da convivência com a mãe e avó, irmãos e tios... Isso por anos a fio! A convivência familiar vai se desfazendo, aquele amor, fraternal, que antes existia, acaba ficando apenas uma educação, um tratar o outro com urbanidade... mas não há mais o prazer da conversa, da troca de notícias das famílias ( que família?). Há apenas um vínculo de sangue!
A amizade verdadeira entre irmãos se faz na convivência, mesmo que na distância, mas por meios diversos: telefone, e-mail, msn... são tantos os meios para se estreitar laços! Como é gostoso quando temos um problema, uma decisão a tomar, podemos ligar ou teclar com alguém que nos ama, nos ouve, nos orienta, nos aceita sem críticas, na realidade, um bálsamo em nossa vidas.
Tenho pessoas assim, maravilhosas, em minha vida! Meus irmãos de sangue e de luta! Meus amigos nascidos na mesma família que eu, que juntos vencemos muitos problemas, com eles nos unimos mais, nos fortalecemos!
A vocês: Robson, Roberto, João, Manoel dedico este texto! Obrigada por existirem e fazerem parte de minha caminhada!

quarta-feira, 22 de setembro de 2010

Minha cidade


Terra Rica, minha cidade
Minha Terra
Terra vermelha, terra dos pés vermelhos
Rua da minha infância: Avenida Euclides da Cunha
Grande escritor, sertanista, ícone da Literatura
rua tão abandonada
esburacada, grandes vossorocas
pinguela sobre elas para entrar em casa
Vossorocas: labirintos das brincadeiras
de meus irmãos, primos e amigos

Casa grande, velha, de madeira
Quintal grande: mais duas casas,
frutas, horta feita pela minha mãe:
cenouras, cebolinhas
alfaces orgânicas
comidas fresquinhas sem lavar!

Terra Rica, terra de José Rico
“batizado” pelo Padre Eduardo,
que também me batizou e
a tantos outros terrariquenses ilustres ou não
Padre de sorriso fácil, batalhador pelas causas sociais
criou o hospital, capelas, usina para
iluminar a vida de ricos e pobres
assim: democraticamente.
Inovador, homem de visão.

Nesta Terra vivi muitos anos
Família reunida, grande, muitos primos e tios.
Estudei nos anos da Ditadura
E o retrato do Emílio (General) na parede
Nos olhando seriamente, nos vigiando.
Esqueleto de verdade em vitrine na
Sala do Diretor: que medo!
A loira do banheiro já assustava meninos e meninas.
Quanta brincadeira embaixo das seringueiras
no terreno enorme
do Grupo Escolar Rosalina de Moraes.

Terra Rica, mas pobre de empregos
para mim.
Mudei
São Paulo abriu seus braços e
Me recebeu
Aqui vivo, trabalho e sou feliz!

(Texto inspirado no poema, de mesmo nome, de Cora Coralina.)

Algumas fotos antigas. As fotos estão no orkut de Midori Endo, que faz
um trabalho maravilhoso de garimpagem dessas relíquias!




















A Copel, companhia de iluminação pública do Paraná, foi criada em 1954. Em 1953, em Terra Rica, eram instalados os primeiros postes de iluminação pública, cuja energia era gerada pela Usina idealizada e construída pelo Pe. Eduardo, que atualmente leva o nome dele. A empresa se chamava SOMETRA.

 

sexta-feira, 17 de setembro de 2010

Super heroína: minha mãe


Pela nossa vida procuramos modelos, ídolos, heróis com super poderes, mas não vemos os heróis e heroínas ao nosso redor. Quem são? Onde se escondem? O que fazem?
Minha mãe é uma dessas pessoas: uma heroína! Por vários motivos, por isso falarei de alguns deles.
Retirante, aos 19 anos, em uma viagem muito longa, com quase toda família, deixou o interior do Pernambuco, Serrita, veio para o interior do Paraná, Terra Rica, naquele tempo ainda distrito de Paranavaí, pequenina, ruas de terra, casas de madeira, o mato sendo desmatado. Vida dura, sem conforto!
Casou-se aos 21, em um ano já tinha seu primeiro filho, enfrentava diariamente os desafios da primeira maternidade, os problemas com o marido, rude, mas trabalhador e honesto. Dois anos e pouco depois do primeiro filho, já tinha o segundo, mais dois anos, o terceiro filho, mais dois anos: eu nasci.
Nesta época ela tinha dupla jornada: na roça trabalhando na enxada ao lado de meu pai (dos filhos pequenos) e quando chegava em casa, ainda tinha todo o serviço doméstico para ser feito: lavar a roupa, limpar a casa, remendar as roupas, tirar água do poço para fazer a comida, dar banho nos filhos; a lenha para o fogão, a comida por fazer. Quanto trabalho, que rotina estafante!
Anos se passaram, por motivos de saúde meu pai vendeu seu sítio, mudamos para a cidade. Nessa época, ainda crianças, meus irmãos mais velhos já faziam pequenos trabalhos para ajudar a família: vender sorvete na rua, vender laranja nos jogos de futebol no campo próximo; separar café para vender; cavar minhocas.
Minha mãe? O que fazia? Todo o serviço da casa, além de enviar os filhos para a escola, lavar sempre e passar suas roupas, uniformes, levar os menores até a escola, ir às reuniões de pais. Com pouco estudo, pois nunca estudou em escola formal, assumiu uma profissão: costureira. Começou a costurar para fora, para as vizinhas, conhecidas, tias. Com essa atividade podia ajudar a manter a casa, comprar roupas para nós, calçados.
Mais alguns anos se passaram: perdemos tudo. Ficamos sem casa, sem teto. Os irmãos mais velhos se casaram, se mudaram para São Paulo. Agora com dois filhos de 14 e 16 anos, grávida de gêmeos, marido desempregado, começaria mais uma etapa dura. Por um tempo muito o filho, agora mais velho na casa, passou a ajudar (e muito) a manter a casa, pois trabalhava em dois empregos: um durante o dia, outro à noite. Quando chegava em casa, ainda ajudava a cuidar dos gêmeos, junto com a irmã, que fazia esse trabalho parte do dia, quando voltava da escola.
A mãe agora com filhos crianças novamente, recomeçava mais uma vez uma luta diária.
Mais alguns anos, o filho que restava em casa, se mudou para São Paulo, posteriormente a filha também. Minha mãe ficou com duas crianças, marido já em outro Estado, viu como saída para ganhar a vida o trabalho de doméstica.
Mais alguns anos, trabalhava diariamente nas casas de pessoas de posses da cidade, enquanto os filhos pequenos ficavam sós em casa, eram responsáveis por se alimentar, ir pra escola, fazer as tarefas.
A filha retorna, um ano trabalhando no interior de São Paulo, ao final do ano uma boa notícia: um dos filhos comprara duas casas em Santo André, uma era para a mãe morar.
Nova mudança. Por alguns anos os filhos, dois deles, ajudavam-na todos os meses com as despesas da casa: alimentação, contas de água, energia.
Novamente ela precisou voltar a trabalhar e voltou a ser costureira, mas agora ganhando muito pouco, trabalhando para oficinas de costura, que por sua vez pegavam o serviço de coreanos do Brás, que pagavam uma miséria por cada peça pronta. Ela não desistiu!!!! Se manteve forte, lutando!
Os filhos adolescentes estudando, ora trabalhavam, ora sem emprego, como todo adolescente brasileiro.
Agora, 2010, com 72 anos, continua apoiando e amparando os filhos, ajudando a criar as netas.
Essa é minha heroína, que mesmo com todos os problemas acima,  com uma vida dura, nunca desistiu de ser mãe, nem desistiu dos seus filhos, nem de educá-los, de vê-los estudando!
A minha mãe, Margarida, dedico esse texto!

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Evito escrever aqui, neste blog, sobre minha vida pessoal, pois desde   o princípio não tive isto como proposta. Tento evitar também trata...

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